• Marcio Kroehn

As razões para a Fórmula 1 no Rio de Janeiro. Há alguma?



Não se engane com os sorrisos e os discursos protocolares. A razão por trás da construção de um autódromo no Rio de Janeiro para receber a Fórmula 1 é política. Não há justificativa econômica, nem motivação esportiva. A cidade e o estado estão quebrados e não precisam de uma corrida de carros para recuperar as finanças. Se fosse assim, o autódromo de Jacarepaguá não teria sido desocupado em 2012 para a instalação do parque Olímpico, que desde 2016 foi abandonado por falta de dinheiro para custear a manutenção.


O anúncio de uma grande obra sempre serve de vitrine para políticos sem projetos na saúde, na segurança, na educação e, até mesmo, na infraestrutura. Mas, por extrema boa vontade, digamos que o novo autódromo seja fundamental para o desenvolvimento do Rio de Janeiro. Para isso, antes de construir vamos descontruir. E na largada já encontramos falhas que, se a experiência dos últimos anos servir para alguma coisa, sabe-se onde essa história vai dar.


A empresa vencedora da licitação é a Rio Motorpark. Criada em janeiro deste ano com um capital social de apenas R$ 100 mil, ela é representada por um empresário que, historicamente, é enrolado, com negócios investigados no Mensalão, na Lava Jato – leia reportagem –, além de uma dívida de R$ 24,7 milhões com a União, por uma empresa que faliu, e mais R$ 85,5 mil como pessoa física. Há 20 ações trabalhistas contra ele (alerta: as semelhanças que você encontrar não são mera coincidência).


O plano desse grupo investidor é desembolsar R$ 697 milhões na construção do novo circuito. Não custa perguntar o que uma cidade falida poderia fazer com um dinheirão desse, mas vamos esquecer as necessidades básicas e focar no autódromo. Esse valor equivale a pouco mais de US$ 180 milhões. O Vietnã, que pleiteia uma vaga no calendário de 2020 da Fórmula 1, está construindo um novo circuito com um custo estimado de US$ 1 bilhão. Como obras no Brasil nunca são exemplo de bom uso dos recursos, a projeção é que a conta será paga com dinheiro público – como lembrou o Elio Gaspari -, ou seja, por mim, por você e pelo coitado do funcionário público carioca que muitas vezes nem salário tem.

Mas o objetivo aqui é não desistir de levar a Fórmula 1 para o Rio de Janeiro, afinal, o evento dá exposição internacional, atrai turistas e movimenta cerca de R$ 300 milhões nos dias em que o Grande Prêmio acontece – essa era a estimativa para a corrida de São Paulo no ano passado. Por isso, em vez de erguer um elefante branco afastado das belezas naturais da Cidade Maravilhosa, por que não inserir os carros entre as melhores imagens de cartão postal?


O piloto brasileiro Lucas Di Grassi mostrou como ser criativo e, ao mesmo tempo, consciente do uso do dinheiro público. Para quem não o conhece, Di Grassi é um dos mais completos e versáteis pilotos da atualidade. Suas qualidades fazem com que se adapte aos carros monopostos e de turismo – e seja vencedor em ambas. Atualmente, disputa o título da Fórmula E, a categoria mundial de carros elétricos – ele foi campeão na temporada 2016/17.


Voltando ao Rio e à necessidade da cidade receber corridas. Di Grassi desenhou um circuito na Marina da Glória, já aprovado pela FIA, que é adaptável à Formula 1, Fórmula E Stock Car e teria um custo cerca de 10% daquele projetado para a construção em Deodoro. De qualquer ângulo, parece muito mais atrativa e lucrativa a adoção da ideia de um especialista como o Di Grassi – a imagem reproduzida neste artigo é da conta do Instagram dele.

Mas o problema é que soluções inteligentes não dão palanque para políticos, que querem ficar marcados pela placa de inauguração. O legado para a cidade e para o cidadão não tem a menor importância. Se São Paulo pensasse no futuro, convenceria o Di Grassi a desenhar um circuito na área do Parque Ibirapuera e transformaria o autódromo de Interlagos num novo parque para os paulistanos. Assim, mostraria que os carros de corrida devem, cada vez mais, ser integrados à evolução de uma grande cidade.


(Conteúdo publicado originalmente no LinkedIn)

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