Leia, abaixo, o texto original de Juca Kfouri, publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 13/03/2008, que dá nome ao livro. A intervenção em itálico, que antecede todos os artigos da obra, é minha.

Por que não desisto?

Um dos sutis detalhes nos textos de Juca Kfouri é a fina ironia, quase inglesa. Às vezes imperceptível, mas sempre presente. Quando está em primeira pessoa, então, é para o leitor se deliciar. É o arremate que encaixa um leve sorriso no canto da boca.   

 

Ponha-se em meu lugar. Imagine-se aos 20 anos de idade, na USP, sonhando em fazer carreira universitária. Aí, surge um convite de uma grande editora para você ir ganhar bem num trabalho com um tema que você adora, o futebol, e que não impedirá a continuidade do curso na faculdade.

Você vai, é claro, e, quatro anos depois, fica diante da encruzilhada: ou seguir na pós-graduação em política ou abraçar de vez o jornalismo, algo que jamais tinha passado por sua cabeça, apesar de o avô materno ter sido jornalista de destaque, o primeiro repórter a encontrar a Coluna Prestes. Então você percebe que está inoculado pelo vírus do jornalismo e dá adeus à USP. A militância na imprensa logo revela que os bastidores de sua paixão são imundos, e você resolve que o leitor tem o direito de saber como as coisas funcionam, por mais que muita gente tente desestimulá-lo a seguir tal caminho, tenso, ameaçador, além de proporcionar inimigos no atacado e processos a granel.

Mas, talvez por herança paterna, o filho do promotor de Justiça não consegue arquivar sua indignação e vai à luta.

Faz até uma carreira bem-sucedida, dirige revistas importantes, trabalha para as TVs líderes no país e depois vira colunista do principal jornal nacional, além de blogueiro do maior portal de internet, âncora da emissora de rádio de mais prestígio e membro da única equipe de TV independente do Brasil.

E ganha muito mais do que imaginava que poderia ganhar como jornalista, essa profissão que ainda remunera mal e que é aviltada pelos que a utilizam para se vender como garotos-propaganda ou para os piores interesses de capitalistas sem escrúpulos, adeptos apenas do deus dinheiro.

Você, no entanto, se deu bem e, apesar de inúmeros erros, manteve seus princípios intactos, jamais se curvou aos poderosos para não mostrar o traseiro para os oprimidos (a frase é do Millôr). Está, portanto, reclamando do quê? Ponha-se no meu lugar, insisto. Você é doido por futebol, torce pelo Corinthians (outra herança paterna) e o que vê, quatro décadas depois de ter começado na profissão?

Um cidadão que você denuncia há mais de 20 anos, que foi devidamente desnudado na imprensa e em duas CPIs, não só resiste no poder como, mais que isso, é hoje dos cinco homens mais importantes do país, bajulado por governadores, ministros e até pelo presidente da República, a ponto de outro dia, numa cerimônia num jornalão mineiro, ter sido mais paparicado que o vice-presidente do país, também presente. Se não bastasse, o Rei se curva diante dele.

Já o seu time de coração se encontra na situação em que se encontra, não só na segunda divisão como nas páginas policiais, muito até pelo que você mesmo ajudou a revelar.

Não é para desistir de tudo, neste país em que somos traídos diariamente? Parar de dar soco em ponta de faca? Só que, se parar, o que dirão os amantes do futebol limpo ou gente como Bob Fernandes, Clóvis Rossi, Elio Gaspari, Janio de Freitas, Luis Fernando Verissimo, Sérgio de Souza e outros caros lutadores?

O jeito é continuar. Porque não tem outro jeito. E tem as netas...

Por Que Não Desisto - Futebol, Dinheiro e Política
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